Foto: Henrique Kawaminami

Doenças não relacionadas ao trabalho respondem por 92% dos afastamentos previdenciários em MS, aponta levantamento

Em 2024, Mato Grosso do Sul registrou 45.191 afastamentos previdenciários concedidos por períodos superiores a 15 dias, com média de 48 dias por licença, segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab).

Desse total, apenas 3.655 afastamentos tiveram relação com acidentes de trabalho, enquanto 41.536 ocorreram por doenças comuns ou fatores externos à atividade profissional, incluindo transtornos mentais.

O volume total representou R$ 6,8 bilhões em despesas para o INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) no ano passado. Deste montante, R$ 696,8 milhões corresponderam a acidentes de trabalho, e R$ 6,1 bilhões foram gastos com doenças não relacionadas ao ambiente laboral.

Os setores de saúde, educação, frigoríficos e construção civil concentraram o maior número de afastamentos. Além dos acidentes típicos — como fraturas e lesões em ombros e joelhos —, doenças extratrabalhistas, entre elas dores nas costas, cânceres, depressão e outros transtornos mentais, ampliaram as ocorrências.

Fatores psicossociais e adoecimento

Para especialistas ouvidas pelo Campo Grande News, o cenário revela um alerta para empresas e trabalhadores sobre a necessidade de reconhecer os limites humanos e prevenir o adoecimento.

A consultora em gestão de pessoas Elenara Baés aponta os fatores psicossociais como raiz do problema.

“O colaborador percebe que o ambiente em que está não oferece perspectiva e não enxerga crescimento, e isso o adoece”, afirma.

Com 30 anos de experiência em psicologia organizacional, Elenara destaca que a falta de propósito e de clareza sobre o papel profissional leva à fadiga profunda, estresse e doenças mentais, agravadas por relações autoritárias e comunicação deficiente.

“A empresa gasta com novos funcionários, treinamentos e o ciclo se repete se o ambiente for tóxico. É o preço de não olhar para o trabalhador como ser humano”, reforça.

Saúde mental e responsabilidade mútua

A administradora e consultora organizacional Lúcia Coletto defende que a saúde mental deve ocupar o centro da gestão moderna.

“Quando o colaborador busca o posto de saúde, é porque não se sente acolhido dentro da empresa. Se ele não encontra esse suporte, vai direto buscar fora”, explica.

Lúcia reconhece que há casos isolados de afastamentos indevidos, mas destaca que são exceções.

“Existe quem queira se beneficiar, folgar ou receber sem trabalhar, mas é uma minoria”, pondera.

Para ela, o equilíbrio depende de responsabilidade compartilhada.

“O trabalhador precisa reconhecer seus limites. Se eu aguento dez horas e faço doze, estou ultrapassando o que meu corpo suporta. É preciso perceber isso.”

Do lado das empresas, é fundamental rever a cultura organizacional.

“A companhia deve permitir o descanso, oferecer espaços de pausa, programas de saúde e benefícios reais. Trabalhar não pode ser apenas sacrifício; tem que haver prazer”, afirma.

Segundo a consultora, companhias sem plano de cargos e carreiras claros são mais propensas a afastamentos.

“Quando não há perspectiva de crescimento, o funcionário deixa de ver recompensa em permanecer ali”, conclui.

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