O ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, Sérgio Roberto de Carvalho, conhecido como Major Carvalho, será submetido a um novo julgamento na Bélgica a partir da próxima segunda-feira (30). A informação foi confirmada pela Justiça do país ao jornal O Globo.
O novo julgamento ocorre após o Tribunal de Apelação de Gante anular, em fevereiro de 2026, o processo anterior por suspeita de parcialidade dos magistrados. Com a decisão, três novos juízes assumem o caso, que apura o envio de ao menos 45 toneladas de cocaína da América do Sul para a Europa. Carvalho segue preso.
O julgamento havia sido iniciado em setembro de 2025 e já estava em fase avançada, com interrogatórios, depoimentos e apresentação de provas, quando foi interrompido. A anulação ocorreu após o encerramento da instrução sem a realização das alegações finais da acusação e da defesa, etapa obrigatória antes da sentença.
Conflitos marcaram processo
As audiências foram realizadas no complexo de segurança Justitia, em Bruxelas, e foram marcadas por uma série de conflitos entre o tribunal e a defesa do réu.
Advogados alegaram dificuldades para atuar devido a restrições impostas no plenário, como a proibição do uso de mesas e tomadas elétricas, sob justificativa de segurança. O impasse gerou interrupções, abandono de sessões e até retirada de advogados pela polícia.
Diversos pedidos de suspeição contra os juízes também foram apresentados, contribuindo para a paralisação do processo. Diante disso, a corte de apelação considerou comprometida a regularidade do julgamento e determinou que o caso fosse reiniciado do zero.
Investigação internacional
O processo na Bélgica trata da etapa internacional do tráfico de drogas, com foco no envio de cocaína à Europa. Investigações paralelas em Portugal apontam desdobramentos ligados à distribuição da droga, especialmente em regiões de Lisboa.
Entre os investigados está Rúben Oliveira, conhecido como “Xuxa”, apontado como braço-direito de Carvalho no país europeu. Segundo as apurações, ele atuaria na distribuição da droga em parceria com a organização ligada ao ex-major.
Mesmo após a prisão de Carvalho — inicialmente na Hungria e posteriormente extraditado para a Bélgica — grupos rivais continuaram disputando o controle do tráfico em território português.
Histórico criminal
Sérgio Roberto de Carvalho possui um longo histórico criminal. No Brasil, foi condenado em 1998 a 15 anos de prisão por transportar 237 quilos de cocaína. Em 2019, recebeu nova condenação, também de 15 anos, por movimentar cerca de R$ 60 milhões por meio de terceiros entre 2002 e 2007.
Ele foi expulso da Polícia Militar em 2010. Na Espanha, viveu sob identidade falsa como “Paul Wouter”, se passando por empresário do Suriname em Marbella. Para evitar a Justiça, chegou a simular a própria morte por Covid-19, fraude posteriormente descoberta pelas autoridades.
O ex-major também havia sido preso em 2018, em alto-mar, com duas toneladas de cocaína, mas acabou libertado após pagamento de fiança, sem que sua verdadeira identidade fosse confirmada na época.