O relatório final da CPI do Crime Organizado no Senado Federal aponta que o crime no Brasil atua a partir das regiões de fronteira, com destaque para o eixo formado por Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná. Segundo o documento, essas áreas se consolidaram como portas de entrada de drogas e armas, operadas por facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho.
Apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE), o relatório descreve o crime organizado como um sistema logístico e financeiro integrado, que conecta produção, transporte, distribuição e lavagem de dinheiro. A investigação estima que ao menos 90 grupos criminosos atuem no país, sendo que PCC e Comando Vermelho têm presença nacional e até internacional.
De acordo com a CPI, cerca de 28,5 milhões de brasileiros vivem em áreas sob influência dessas organizações, que exercem algum tipo de controle territorial. O documento também indica que aproximadamente um quarto do território nacional sofre impacto direto ou indireto da atuação criminosa.
No caso de Mato Grosso do Sul, o relatório destaca que o estado deixou de ser apenas rota de passagem e passou a ocupar posição estratégica no fluxo do tráfico internacional, conectando a produção de cocaína na região andina aos centros consumidores do Sudeste.
A fronteira seca com Paraguai e Bolívia, somada à grande quantidade de rotas e à presença desigual do Estado, favorece a atuação das facções. O transporte envolve desde pistas clandestinas até rodovias e áreas rurais, criando uma logística contínua para circulação de drogas e armas.
O relatório também aponta que essa estrutura funciona de forma empresarial, com divisão de tarefas entre diferentes núcleos responsáveis por transporte, armazenamento e exportação, reduzindo riscos e aumentando a eficiência das operações ilícitas.
Além da atuação territorial, a CPI identificou o avanço do crime organizado sobre setores da economia formal. Entre os segmentos citados estão mercado imobiliário, combustíveis, ouro, bebidas e serviços financeiros.
O uso de tecnologias como fintechs, criptomoedas e fundos de investimento aparece como ferramenta central para ocultação e circulação de recursos ilícitos. O relatório cita o caso do Banco Master como exemplo de possíveis movimentações suspeitas e esquemas complexos de lavagem de dinheiro, embora reconheça limitações para aprofundar todas as investigações.
O documento também traz um componente político ao pedir o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal — Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes — além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Segundo o relator, decisões judiciais teriam limitado o alcance das investigações da CPI.
Apesar das críticas, o relatório afirma ter consolidado um diagnóstico abrangente e propõe medidas como o fortalecimento da inteligência, maior integração entre órgãos de segurança, ampliação do bloqueio de ativos e mais transparência sobre recursos financeiros.
Entre as sugestões também estão a criação de um Ministério da Segurança Pública e o reforço orçamentário de instituições como a Polícia Federal, Receita Federal e órgãos de inteligência.
Para o relator, o crime organizado deixou de ser um problema localizado e passou a representar uma questão de soberania nacional, com impacto direto não apenas na segurança pública, mas também na economia e nas instituições do país.
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