A embarcação encosta no barranco de um dos rios do Pantanal e, antes mesmo da estrutura de atendimento ser montada, a arte-educadora Neide Leones Pereira, de 64 anos, já reúne crianças ao seu redor. No chão batido da comunidade ribeirinha, ela transforma o espaço em palco para histórias, brincadeiras e orientação — um respiro de leveza em meio ao isolamento.
Há 15 anos, Neide integra as expedições do programa social Povo das Águas, desenvolvido pela Prefeitura de Corumbá. A iniciativa, criada há 17 anos e transformada em lei municipal em 2012, leva atendimento médico, assistência social e cidadania a mais de 600 famílias espalhadas pelos rios do Pantanal.
Enquanto a equipe multidisciplinar prepara consultas, vacinação e distribuição de medicamentos, Neide promove oficinas e momentos de lazer. “É minha energia, não tem preço”, resume. Ao longo dos anos, viu crianças crescerem, formarem famílias e agora levarem seus próprios filhos para participar das atividades.
O programa marcou uma mudança profunda na realidade das comunidades tradicionais do Pantanal, bioma que ocupa mais de 90% do território de Corumbá — um dos maiores municípios do Brasil, com cerca de 64 mil km².
Até o início dos anos 2000, muitos moradores viviam em completo isolamento, sem acesso a documentos básicos, saúde ou políticas públicas. Grande parte dessas famílias descende de trabalhadores que perderam espaço nas fazendas após a cheia histórica de 1974.
Com o avanço das ações, vieram documentos, casamentos coletivos, acesso à educação, telefonia e até energia solar. O que antes era esporádico se tornou política pública contínua.
A estrutura do programa gira em torno de uma UBS fluvial que percorre milhares de quilômetros pelos rios Paraguai, Taquari e Cuiabá. As equipes realizam ao menos duas expedições por ano em três regiões: alto, médio e baixo Pantanal.
Na última missão, realizada entre os dias 8 e 14 de maio, a equipe percorreu cerca de 600 quilômetros na região do alto Pantanal. Ao todo, 20 profissionais participaram da ação, entre médicos, enfermeiros, assistentes sociais, dentistas, agentes de saúde e voluntários.
Cada viagem custa, em média, R$ 300 mil aos cofres municipais — investimento considerado essencial para alcançar comunidades de difícil acesso, muitas delas só atendidas por equipes volantes.
Mais do que consultas e remédios, o programa representa dignidade. Para quem vive às margens dos rios, cada visita reforça o sentimento de pertencimento.
“A gente volta renovado com o sorriso e o carinho dos ribeirinhos”, afirma o coordenador Josiney Santos. O barbeiro voluntário Ewerton Martins, de 25 anos, resume o espírito da missão: “Fazer o bem a essa gente me deixa muito feliz”.
Entre histórias, atendimentos e reencontros, a embarcação segue seu curso — levando não só serviços, mas também presença do poder público a quem, por décadas, esteve fora do mapa.
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