Foto: Arquivo

“Santa do Mel” desaparece e casa que já recebeu romarias vive hoje em silêncio na Capital

Tijolos fecham a entrada da casa que um dia recebeu multidões na Vila Glória, em Campo Grande. Atrás do muro, ainda é possível ver a inscrição desgastada pelo tempo: “Samta do Mel”. O nome, pintado com erro ortográfico, resiste como lembrança de uma época em que o endereço virou ponto de romarias improvisadas, reunindo pessoas em busca de cura, bênçãos e esperança diante de uma imagem religiosa que, segundo a família, escorria mel.

Hoje, o cenário é outro. Não há filas, visitantes ou movimentação. A residência se mistura às demais casas da rua, e quem passa dificilmente imagina que o local já concentrou relatos de fé, exames médicos e histórias de supostos milagres.

A reportagem conversou com dona Sônia, que falou da janela da casa, sem mostrar a imagem. Segundo ela, a santa continua guardada em local mantido em segredo, em razão de uma disputa judicial envolvendo o inventário do ex-marido, José João Rezek. “Ela tá guardada”, resumiu.

De acordo com Sônia, a visitação foi interrompida após conflitos familiares que surgiram depois da morte do companheiro. “Trouxe problema familiar, inventário, essas coisas”, disse. A mudança fez com que a rotina da casa fosse completamente alterada, levando ao fechamento do espaço ao público.

Ela relembra que o fenômeno teria começado quando o marido sentiu cheiro de mel vindo da imagem. “Quando fomos olhar, vimos que estava escorrendo”, contou. A versão mais conhecida, segundo ela, não seria totalmente correta. “Não saía do olho, como muita gente fala. Saía do acendedouro da santa.”

O que inicialmente seria mantido em sigilo rapidamente se espalhou. “Ela contou para outras pessoas e a notícia correu”, afirmou, referindo-se a uma familiar. A partir disso, a casa passou a receber visitantes de diversas regiões. “Vinha gente de tudo quanto é lugar.”

Pessoas chegavam com exames, fotografias, recipientes e pedidos de oração. Muitos buscavam o mel para uso próprio, acreditando em seu poder de cura. “O povo vinha buscar pra passar, tomar, fazer oração.”

Entre os relatos, Sônia cita casos que considera marcantes, como o de um menino que teria chegado com problemas de pele e saído curado no mesmo dia, e o de um homem que, segundo ela, retornou para agradecer após mudança em uma decisão judicial. Com o tempo, exames, cartas e bilhetes passaram a se acumular na residência.

Outro elemento que ganhou notoriedade foi a chamada “sopa da santa”, preparada, segundo ela, com pequenas quantidades do mel. “Eu fazia com uma gotinha”, contou, acrescentando que ainda há quem procure o local em busca da receita.

Mesmo com a casa fechada, Sônia afirma que ainda recebe visitantes de forma discreta. Ela também relata episódios de tensão, incluindo tentativas de invasão para destruir a imagem, o que reforçou a decisão de mantê-la protegida.

Questionada sobre a origem do fenômeno, ela evita explicações. “Isso você vai ter que perguntar pra Deus, minha filha”, disse.

Apesar do silêncio atual, Sônia acredita que a história ainda não terminou e afirma que pretende reabrir o espaço quando a disputa judicial for resolvida. “Quando resolver tudo, eu vou reabrir”, afirmou.

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