Foto: Paulo Francis / Arquivo

Réu por morte da jornalista Vanessa Ricarte não é interrogado e audiência termina sem depoimento

Mais de um ano após o assassinato da jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, o réu pelo crime voltou a deixar uma audiência sem prestar depoimento. A segunda audiência de instrução do caso foi realizada nesta segunda-feira (9), mas o interrogatório de Caio Cesar Nascimento Pereira não ocorreu porque ainda não foi concluída a perícia no celular apreendido pela polícia.

O processo tramita sob sigilo na 1ª Vara do Tribunal do Júri e é conduzido pelo juiz Carlos Alberto Garcete.

Durante a audiência, o assessor de imprensa Joilson Francelino, amigo da vítima, foi ouvido pela primeira vez na condição de vítima. Inicialmente ele figurava no processo apenas como testemunha, mas passou a ser considerado vítima de tentativa de homicídio após decisão do Tribunal de Justiça.

Segundo o advogado Renato Franco, que atua na defesa do réu, o interrogatório de Caio não foi realizado porque, no processo penal, o acusado tem o direito de se manifestar por último, após a reunião de todas as provas.

“O interrogatório não aconteceu porque existe um detalhe no processo criminal em que todas as pessoas acusadas têm o direito de falar por último. Primeiro se reúne todo o acervo de provas e depois ele, na qualidade de autodefesa, explica o que concorda ou não”, afirmou.

Ainda de acordo com a defesa, o Ministério Público apresentou um aditamento à denúncia durante o andamento do processo, incluindo novos elementos e possíveis crimes relacionados ao caso.

Entre as condutas citadas estão perseguição, cyberstalking, exposição pornográfica não consentida e violência psicológica.

“São crimes bastante modernos e que estão ligados a elementos que precisam ser esclarecidos pela perícia que está com o Gaeco”, disse o advogado.

A perícia nos celulares apreendidos ainda não foi concluída, o que motivou o adiamento do interrogatório.

Amigo da vítima passa a ser tratado como vítima

De acordo com o advogado Pablo Arthur Buarque Gusmão, assistente de acusação de Joilson Francelino, a mudança da condição de testemunha para vítima ocorreu após recurso apresentado ao Tribunal de Justiça.

“O Joilson figura como vítima agora. Antes ele estava como testemunha. Houve um recurso em sentido estrito no Tribunal de Justiça que reformou a decisão inicial”, explicou.

Durante o depoimento, Joilson relatou a dinâmica do crime e afirmou que também foi perseguido pelo réu no dia do assassinato.

“Ele narrou todo o fato, como aconteceu na percepção dele. Inclusive participou do momento em que o réu corre atrás dele com uma faca e tenta desferir o golpe”, afirmou o advogado.

Segundo o relato apresentado em audiência, Joilson conseguiu escapar ao se apoiar em uma porta e em uma geladeira dentro da residência.

Com a mudança no enquadramento, ele passou a ser considerado vítima de tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil.

Perícia em celulares ainda não foi concluída

Ainda segundo a acusação, a perícia nos celulares apreendidos enfrenta dificuldades técnicas. Os aparelhos são iPhones e, até o momento, os peritos não conseguiram quebrar a criptografia dos dispositivos.

“Não conseguiram quebrar a criptografia dos aparelhos celulares. Por isso existem questões relacionadas a crimes de perseguição, violência psicológica e exposição de nudez que ainda dependem dessa análise”, explicou Gusmão.

O juiz deve finalizar a ata da audiência e conceder prazo de cinco dias para manifestação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) sobre a perícia.

Somente após essa etapa será marcada uma nova audiência, quando o réu deverá ser interrogado.

Acusação diz que já há provas suficientes

O advogado André Gomes, que representa a família da jornalista e também atua como assistente de acusação, afirmou que o depoimento de Joilson foi importante para esclarecer pontos da acusação.

“O depoimento dele foi excelente e contribuiu muito para a acusação e para que a Justiça realmente seja feita”, disse.

Apesar da espera pelo resultado da perícia, ele afirma que a acusação entende que já existem provas suficientes no processo.

“Nós já temos toda a extração de dados dos equipamentos, inclusive do WhatsApp da vítima. Entendemos que já existem elementos para comprovar a materialidade dos crimes”, afirmou.

Após a conclusão da perícia e o interrogatório do réu, o processo seguirá para a decisão de pronúncia, etapa em que a Justiça definirá se o caso será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri.

Caso teve repercussão nacional

Vanessa Ricarte foi assassinada no dia 12 de fevereiro de 2025 pelo ex-noivo, o músico Caio Cesar Nascimento Pereira.

Horas antes do crime, a jornalista havia procurado a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) para denunciar episódios de agressão e ameaças e solicitar medida protetiva de urgência.

Segundo familiares, ela não teria recebido acolhimento adequado. Em um áudio enviado a um amigo no mesmo dia, Vanessa afirmou que foi atendida de forma “fria e seca” e orientada a voltar para casa.

A decisão judicial que determinava o afastamento do agressor ainda não havia sido comunicada quando o ataque ocorreu. Vanessa foi esfaqueada três vezes na entrada da casa onde morava, no Bairro São Francisco, em Campo Grande.

O caso teve grande repercussão nacional e levantou questionamentos sobre os protocolos de atendimento a mulheres em situação de risco.

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