A revolução começa na sala de aula: Dra. Eugênia Portela a voz da mudança na educação antirracista

O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, é celebrado em 20 de novembro, foi instituído oficialmente pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. A data faz referência à morte de Zumbi, o então líder do Quilombo dos Palmares, situado entre os estados de Alagoas e Pernambuco, na Região Nordeste do Brasil.

A professora Eugênia Portela de 59 anos, casada, mãe de dois filhos, e avó de três netos, iniciou sua carreira no ensino médio. Sua mãe foi sua maior inspiração, apesar de ter tido só o ensino fundamental, ela alfabetizou com a pouca experiência que ela tinha de letramento. Sua irmã mais velha, dava aula para crianças pequenas, e foi ai, vendo sua mãe e irmã, que o gosto pela educação nasceu.

”Nós tínhamos uma lousa, um quadro negro, como falavam antigamente e giz na cozinha da nossa casa, minha mãe fazia questão de nos alfabetizar, e de certa forma, como brincadeira de criança, falavamos que seríamos professores e professoras, e foi a partir dai primeira a experiência que eu tive, mesmo antes da pré escola.” lembra Eugênia.

Sua primeira faculdade foi Letras, e a professora foi construindo seu legado. Atualmente, ela é docente da Faculdade de Educação e do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação da UFMS. Doutora em Educação, também com mestrado e pós-graduação em Educação e atualmente coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) da UFMS, e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação, Relações étnico-raciais e Formação de professores (GEPRAFE). E com atuação na ANAN (Associação Nacional da Advocacia Negra).

Eugênia relata sobre as mulheres negras na educação na sociedade brasileira, o principal ponto é levar em consideração o racismo estrutural. As desigualdades ficaram na sociedade mesmo após abolição, por muito tempo, não houve política de Estado que garantisse a inserção de negros e negras na educação formal. Naquela época, existia listas de decretos que impediam negros e negras, de estudarem e ingressarem na educação formal, mesmo após a abolição.

“Então, mesmo com a abolição, as mulheres negras foram aquelas que conseguiram no início, trabalhar, por exemplo, as fotos nos livros de história as mulheres negras vendendo tablados de cocada, carregando  na cabeça, essas mulheres eram chamadas de quituteiras, tinham as que trabalhavam em pensionatos, passando roupas, o trabalho doméstico braçal, era sem legislação trabalhista, e depois, de muito tempo, quase recentemente, as empregadas domésticas foram ter direito a lei trabalhista, e se a gente for olhar, são as mulheres negras que estão nessa pirâmide.”

A Doutora, fala que as desigualdades raciais afetam muito os homens negros, mas sempre afetaram mais as mulheres negras. Porque quando a gente olha as desigualdades numa forma de pirâmide, vemos o homem branco no topo, mulheres brancas, aí vemos os homens negros e mulheres negras. A questão da saúde, também mostra o quanto que essas mulheres são vulneráveis. “E aí, quando você vai olhar majoritariamente quem são as empregadas domésticas? São mulheres negras, pois passam de geração, começou com a avó, depois a filha, depois a neta, e é assim, que essa desigualdade na sociedade brasileira é racismo estrutural enraizado, que afeta grandemente as mulheres negras nesse País.”

Foto: Redes Sociais

Para mudar esse quadro, para que efetivamente a gente venha falar em dignidade, em garantia de direitos, para as mulheres negras, “Eu acredito muito na educação, vejo que é por meio dela, por meio do acesso ao ensino médio, a educação básica, a universidade, que é possível pensar a médio e longo prazo em uma mudança dessa realidade social que a gente vivencia hoje.”

A Lei 10.609 de 2003, que foi a lei que instituiu a história e cultura africana e afro brasileira nos currículos da educação básica se criou junto com o  20 de Novembro, a professora, lembra que a comemoração do 13 de maio, que foi a libertação dos escravos, que na verdade foi só a liberdade, porém, não tinham integração na sociedade, não tinham salário, não tinham condições para a população negra naquela época.

“O 20 de novembro é representado por Zumbi dos Palmares, que foi um líder de resistência no período da escravidão, quando ele criou Quilombo dos Palmares e lá tornou por muitas décadas aquela resistência com outro modelo de sociedade aonde havia respeito, produção, divisão de alimentos. Essa data é um marco, é uma data que em alguns estados do Brasil é até considerado feriado. Reconhece a importância. Não tem que ser feriado, por que é importante, mas, muitos feriados que a gente tem uma tradição católica, por exemplo, aqui Campo Grande é Santo Antônio, é o dia do santo, e é considerado importante, e é feriado.”

Esse dia, tem trazido outras bandeiras, outras lutas, o debate sobre as desigualdades das pessoas com deficiência, para a comunidade LGBTQIAPN+, e principalmente o combate ao racismo. A discução sobre equidade de gênero, sobre as mulheres no Judiciário.

“Então, passa a ser também interações antirracistas, né? Mesmo lá, em 21 de março, que é o dia da Internacionalização Antirracismo, o dia 20 de Novembro, tem tido cada vez mais espaço, no sentido de que o mês todo volta a fazer essa discussão sobre a desigualdade na sociedade brasileira, claro que essa discussão poderia ser feita ao longo de todo o ano, mas é uma data importante que necessita ser compreendida, principalmente nessa perspectiva que a gente tem trazido o letramento racial e que as pessoas possam compreender o combate ao racismo.”

Ainda destaca que é uma luta de toda a sociedade, que cada vez mais vem recebendo, e agregando outros debates. Trazer essas informações para as pessoas brancas, é compreender que a luta antirracista não é só apenas para as pessoas negras. Que quando há racismo, há uma mácula na democracia.

“E o racismo mata. O racismo é violento, o racismo invisibiliza e o racismo continua sendo estruturante. Estruturou a sociedade brasileira. O racismo é estrutural na medida que se não houver uma mudança, como recentemente saiu uma pesquisa de que as pessoas que estão hoje dependendo de mobilidade sócio econômica vão levar mais de nove gerações para poder transpor isso, e o Brasil em mobilidade social, ele fica abaixo apenas da Colômbia, entre os dez países que as pessoas têm mais dificuldade para mudar o quadro. E quando a gente fala em mobilidade social, falamos em desigualdade, falamos em pobreza. E quando a gente fala isso, a gente faz o recorte racial e lá está, majoritariamente a população negra.”

Eugênia tem uma coleção de bonecas negras, que começou em 2011. Com duas bonecas negras, a primeira ganhou da irmã, e a segunda foi do marido. Ela conta que quando foi fazer o concurso da UFGD, antes de iniciar na UFMS, seu marido fez uma promessa de que se fosse aprovada, eles teriam uma coleção de bonecas negras, mas ele também sabia que era um desejo de Eugênia.

Aprovada em 1° lugar, começaram a coleção. A primeira exposição foi feita em 2012, um ano após de ter ingressado na UFGD, e a partir daquele momento, a exposição das bonecas foi ganhando visibilidade, nas escolas, nas universades, levando representatividade que tanto tempo não existia.

“A exposição cumpre esse papel, ver tantas crianças negras se sentirem valorizadas e as crianças brancas também, de ver a possibilidade da diferença do belo que não seja efetivamente nessas características, a importância da gente poder reeducar. É o olhar de reeducar. São poucas bonecas que eu tenho com característica afro, o cabelo, o nariz, a própria cor dos olhos, mas a indústria tem mudado, tem feito cabelo afro, tem feito rastafári, trancinha, e é a partir desse olhar euro centrado do que é o belo, que a exposição tem essa finalidade.”

 

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.  Angela Davis

 

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